Cultura

Um olhar xamânico sobre a cultura psicodélica eletrônica

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Aquilo que aqui trato por “cultura psicodélica eletrônica”, como você pode se imaginar, diz respeito ao fenômeno do uso de substâncias psicodélicas no âmbito de festivais ou encontros de música eletrônica (mais especificamente o trance e suas vertentes), principalmente em ambientes naturais mais reservados, tais como praias, chácaras, montanhas etc. Neste artigo, pretendo contextualizar esta atividade – amplamente difundida nas últimas duas décadas – a partir de um panorama xamânico, algo por sua vez não tão difundido de uma maneira geral.

Primeiramente, devo mencionar a grande importância desses eventos para a propagação do uso de psicodélicos e a consequente introdução de um notável número de pessoas a este tipo de conhecimento. Certamente, desde a geração de 1960 não se assistia a uma contracultura tão eficiente em gerar interesse pela atividade psicodélica.

Dito isso, há de se levantar uma questão delicada que pode gerar uma certa confusão: até que ponto é possível falar em uso recreativo de psicodélicos?

Não há dúvidas de que a palavra “festa” remete à diversão, e o mesmo pode ser dito a respeito de um “barato” ou de uma “brisa” (ou seja lá qual for a expressão na moda). Enquanto na cultura psicodélica eletrônica a palavra “psicodelia” também se associa à diversão, numa perspectiva xamânica ocorre quase o inverso, ou seja, a atividade psicodélica é vista como um aprendizado (o maior que existe, diga-se de passagem) a princípio muito difícil, no qual se obtém respostas às questões existenciais mais profundas.

É importante notar que, em todas as linhagens xamânicas milenares, é fundamental que o indivíduo esteja sozinho numa iniciação psicodélica. Pressupõe-se que os medos devem ser superados com a força interior do sujeito, e portanto este deve permanecer recluso pelo tempo que lhe durarem os efeitos.

É certo que não se pode determinar matematicamente o ponto em que um psicodélico passa a representar um desafio a ser superado pelo usuário, até mesmo porque cada organismo reage de forma distinta. Ainda assim, se fosse para “chutar”, eu diria que a partir de uns 300 microgramas de LSD qualquer pessoa teria uma séria aventura existencial pela frente, tomando-o como exemplo por se tratar do psicodélico mais estudado clinicamente e laboratorialmente até hoje. Desse ponto em diante, certamente há uma grande influência psicológica relacionada à presença de terceiros (como no caso de uma festa), sendo que a multidão passa a exercer o papel simbólico de respaldar o psiconauta contra seus medos e fraquezas.

Quem já passou por uma forte experiência psicodélica sozinho, sabe muito bem que a autoconfrontação psicológica (e consequentemente o aprendizado) é muito mais intensa. Afinal, o ser humano é, como os demais mamíferos, essencialmente social: no momento de afrontar o desconhecido, ele se sente mais seguro estando acompanhado.

Aqui também posso mencionar religiões como o Santo Daime e a razão de elas não serem consideradas uma prática xamânica por linhagens de ancestralidade milenar. Ainda que haja uma grande atenção à seriedade/profundidade da prática psicodélica nestas igrejas, prevalece o mencionado instinto tribal de adentrar o desconhecido/misterioso em conjunto – de modo similar à cultura psicodélica eletrônica e inverso ao ímpeto xamânico da confrontação/evolução subjetiva. Assim, fora do contexto xamânico, a atividade psicodélica acaba constituindo uma forma de amplificação dos laços tribais (se as dosagens forem altas) ou até mesmo uma forma de recreação (se as dosagens forem baixas).

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Cerimônias nas quais o pajé/herbalista se mantém ao lado do paciente (geralmente com o intuito de lhe “proteger de maus espíritos”) ao lhe dar uma preparação psicodélica, algo comum em regiões como a Amazônia, classificam-se como rituais de curandeirismo (visando tanto a cura física quanto espiritual), e não como iniciações xamânicas propriamente ditas.

Espero que esta explicação venha a acrescentar uma maior compreensão e possivelmente um maior interesse sobre uma esfera de entendimento xamânico. De qualquer forma, independentemente do contexto, minha visão pessoal é a de que todas as práticas psicodélicas devem ser culturalmente valorizadas, tanto pelas pessoas que delas participam quanto pela sociedade em geral, seja por conta de seus benefícios ao indivíduo ou ao coletivo.

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