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Ciência

Os psicodélicos como ferramentas de entendimento astrofísico

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O entendimento astrofísico

É certo que não há uma conexão direta óbvia entre o estudo de psicodélicos e o estudo da física, salvo quando o indivíduo já teve uma vivência psicodélica de grande intensidade. No entanto, não creio que este assunto deveria ser simplesmente ignorado, daí a razão deste artigo.

Para os leigos, é necessário esclarecer que a experiência psicodélica é um evento subjetivo em que, uma vez superados o estranhamento e a insegurança iniciais, abrem-se as portas para a sensibilidade à infinitude existencial e à conexão dinâmica entre os elementos da natureza e do universo. Este tipo de experiência não se encerra por aí, progressivamente desvelando as diversas camadas de ilusões que caracterizam nossa percepção de espaço, tempo e matéria (o que logicamente implica numa completa revisão de nosso próprio papel na realidade, daí o aspecto ilimitadamente instrutivo da atividade psicodélica).

Aos olhos de um leigo, a compreensão sobre os fundamentos da mecânica universal (algo supostamente apenas realizável através de genialidade matemática, alta tecnologia telescópica, aceleração de partículas, etc.) parece um assunto completamente distante da prática psicodélica. Assim, cabe tecer algumas poucas palavras introdutórias à Teoria do Universo Holográfico e à Teoria das Supercordas, para que dessa forma o leitor, ainda que desprovido de prática psicodélica, possa conceber como essa associação se faz plenamente possível.

Basicamente, a primeira teoria citada acima mostra o universo como algo fundamentalmente comparável a uma projeção holográfica, onde cada feixe de luz reflete a imagem inteira. O universo seria então originário de uma essência simultaneamente presente em cada parte e no todo, tal qual cada molécula do DNA de um ser vivo contém os dados estruturais deste ser inteiro (teoricamente, com uma molécula de seu DNA seria possível reconstruir você por completo). Em outras palavras, vendo por este ângulo, um grão de areia contém a informação essencial de todo o universo.

Já a Teoria das Supercordas apresenta o universo como um arranjo multidimensional, no qual as diversas dimensões seriam resultado da vibração de microcordas unidimensionais “zilhões” de vezes menores que um átomo – e que seriam os verdadeiros blocos fundamentais da existência, cuja vibração (ou “música”, como se diz metaforicamente) seria a essência onipresente que projeta o universo holográfico, numa livre sobreposição das teorias.

O problema na compreensão deste panorama é justamente que a mente esteja sensível à assimilação de outras dimensões além das três em que se resume nossa experiência sensorial cotidiana. Aí é onde entram em cena os psicodélicos: quem já deu um mergulho profundo nesta realidade, compreende que há a possibilidade de se observar outras dimensões (mesmo que ainda inexista uma linguagem apropriada para descrevê-las). Num contexto xamânico, para além de peculiaridades folclóricas associadas, prevalece a visão de que a experiência psicodélica possibilita uma conexão direta à essência de tudo o que existe – algo que se poderia descrever como sentir a vibração das tais supercordas que dão origem ao universo. Vale lembrar que a Teoria das Supercordas citada acima foi elaborada por grandes mentes da física, no esforço de solucionar questões gravitacionais que impedem a unificação da Relatividade Geral e da Física Quântica (o que resultaria na famosa “Teoria de Tudo”).

Minha opinião pessoal é a de que, independentemente da possibilidade de uma Teoria de Tudo, na prática há um limite para a parcela de realidade que pode ser englobada pela linguagem, seja ela verbal ou matemática – ainda que esta última parece aproximar-se de forma mais precisa da intrincada dinâmica cósmica. Esta impossibilidade (da linguagem abarcar a realidade por inteiro) é algo facilmente compreendido por quem já teve a oportunidade de se aventurar pelos mares da psicodelia, uma vez que aí se tem clara a noção de que apenas a informação mais superficial pode ser contida em invólucro linguístico. Assim, em minha humilde visão, a essência do universo seria sensível, mas de forma alguma transmissível – salvo que no futuro seja possível o desenvolvimento de uma linguagem telepática.

Para concluir, é necessário defender a plena viabilidade dos psicodélicos como instrumentos para aproximar a mente humana à “mente” do universo. Afinal, estas substâncias são a melhor maneira de descobrirmos o que há dentro de nós mesmos… E talvez dentro de nós mesmos esteja nada menos que todo o universo.

Até a próxima!

Este texto foi escrito em 14/03/2018, dia da morte do físico Stephen Hawking, em homenagem (provavelmente se revirando no túmulo).

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