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O uso de psicodélicos por crianças – cutucando tabus

criança quebrando tabus

Cutucando tabus:

Já esclareço a um princípio que, cutucando tabus ao mencionar a utilização de psicodélicos por crianças, logicamente não me refiro àquele cara do seu bairro que começou a fumar erva com nove anos de idade. Aqui vou falar sobre comunidades que fazem o uso ritual de psicodélicos de primeira ordem (tais como ayahuasca, peiote, san pedro, etc). Antes que alguém surja com o impulso “politicamente correto” de criticar esta prática na esfera infantil, convém lembrar que é algo legalizado em vários países, incluindo o Brasil – observada sua restrição ao uso exclusivamente tradicional.

É desnecessário explicar que, no contexto cultural de tais comunidades, as substâncias psicodélicas são vistas como medicinas para corpo, mente e espírito – daí seu caráter eminentemente sagrado. Dessa forma, elas são consumidas com propósitos diversos ao longo da vida do indivíduo – do início ao fim. Quem já teve a oportunidade de participar desse tipo de ritual, sabe que se trata de um âmbito familiar, no qual todas as gerações estão envolvidas. Este envolvimento não se dá apenas pelo aspecto cultural, mas também pelo reconhecimento individual de que esta prática traz uma série de benefícios.

Sem ignorar o caráter efetivamente medicinal dessas substâncias, as vantagens de seu uso tradicional são geralmente descritas da seguinte forma:

– Maior capacidade de adaptação às adversidades da vida;
– Desenvolvimento do autoconhecimento e do conhecimento do outro (empatia);
– Uma percepção mais natural de questões existenciais como a morte e a transcendência;
– Valorização da sinceridade e da ética.

Sob um olhar evolucionista/darwinista, pode-se dizer que, desde suas origens ancestrais, esses grupos adotaram o elemento psicodélico como base de equilíbrio e coesão social, de forma que esta atividade representa, antes de tudo, uma estratégia evolutiva. Salientando a importância de uma análise objetiva deste assunto culturalmente “delicado”, é pertinente apontar para fatos como a inexistência de violência doméstica nessas comunidades. Isso, por si só, já nos deveria trazer a ideia de que uma crítica moral externa de tais práticas é comparável a um brasileiro criticando a administração pública da Suécia ou do Japão.

Estando claro o disposto acima, falarei um pouco sobre o uso infantil de psicodélicos. Pode-se dividir essa prática em duas vertentes, adotadas ao longo de centenas (ou em muitos casos milhares) de anos por grupos que apresentam tradições de traços xamânicos ou por linhagens xamânicas propriamente ditas. Uma dessas vertentes é a que observamos no território nacional em plena maioria (com o uso da Ayahuasca), mas também em outras partes do globo, como na Sibéria (Amanita Muscaria). Caracteriza-se pelo uso de maior frequência/regularidade e pelo menor traço iniciático. Neste caso, não há uma única grande iniciação, ou seja, um só evento de absoluta transformação individual em função da plenitude da experiência psicodélica. É o caso das igrejas do Santo Daime, da União do Vegetal e da Barquinha, cujo aspecto iniciático mais importante (o “fardamento”) não passa de uma formalidade (o uso da indumentária oficial e o assentimento à responsabilidade ante a doutrina). Assim, o indivíduo pouco a pouco amplia sua consciência e estende seu grau de participação no contexto social ritualizado. Nesta conjuntura, as dosagens de psicodélicos utilizados por crianças são mais suaves, podendo inclusive ser administrados desde sua primeira infância.

Já a segunda vertente, predominante entre povos nativos dos desertos dos EUA e México (peiote) e das florestas da África Equatorial (iboga), apresenta um caráter fortemente iniciático, ou seja, marcado por uma grande iniciação, na qual se dá ao(à) jovem (geralmente na idade de transição entre infância e pré-adolescência) uma volumosa quantidade do elemento psicodélico, caracterizando sua passagem para a fase adulta e sua completa inclusão social (a consolidação de seu papel no contexto coletivo). Nesses grupos, consomem-se quantidades geralmente bem mais modestas do(s) psicodélico(s) próprio(s) de sua cultura/geografia em outras oportunidades/eventos, porém com regularidade bem menor em comparação aos grupos da primeira vertente – recorrendo-se a essas substâncias predominantemente nos casos de necessidade de cura física, mental ou espiritual. Outra diferença é que, nesta segunda vertente, dificilmente as crianças conhecerão os efeitos do psicodélico sagrado à sua cultura antes de sua iniciação (quando aí os conhecerão em toda sua extensão).

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Não creio ser apropriado falar muito aqui sobre essas comunidades e suas “crias”, pois aí há todo um universo social a ser descoberto por quem buscar uma aproximação às suas respectivas práticas e tradições. Seria inadequado mencionar apenas uma parte em detrimento do todo, uma vez que um legado cultural apenas pode ser compreendido em sua plenitude. De fato, a ideia é fomentar no leitor o interesse pelo contato com essas tradições e seus conhecimentos. Assim, quem sabe um dia ele próprio ver-se-á uma “criança” ante uma linhagem psicodélica ancestral.

Até a próxima!

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