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Nômade, provocativa e irreverente! Conheça: Agatha Brum

Agatha Brum

Agatha Brum é sem dúvida uma das performers de maior destaque da nova geração underground da arte/vida brasileira. Mesmo iniciando sua carreira em um país onde arte contestadora e provocativa nem sempre é compreendida, a artista mineira criou a duras penas uma lista invejável de exposições internacionais para uma performer tão nova. Após 11 países visitados, suas exposições figuram em diversos lugares do globo. Exposições como Santa Ágata (2014) expostas no México, Colômbia, Chile, Brasil e Estados Unidos;  Explode Coração (2015) em Israel; Corpos em Eco (2015) no Reino Unido e exposições completas de seu trabalho em diversas capitais brasileiras.

Mesmo com grande repercussão internacional, Brum faz questão de marcar terreno e mostrar que a vida de artista, sobretudo no Brasil, não possui nada de glamour. Agatha vive entre as galerias de arte internacionais, mesas de restaurante e saguões de hotéis. Hora artista, hora garçonete, sua vida é o retrato claro das dificuldades do artista brasileiro. Agatha Brum, mecenas de si, paga o pão, o teto e a arte.

Santa Agatha baseou boa parte de sua obra na fuga dos cânones da academia de arte, cuspiu na cara de Rapunzel e fugiu da torre de marfim para o mundo real onde encontrou sua essência artística. Forte, visceral e corajosa, faz sua arte como a velha guarda, exilada de vernissages da falsa aristocracia intelectual de São Paulo. O silêncio marcante em suas obras se faz voz, seu corpo quadro, e o mundo seu palco.

Leia na integra a entrevista:

PB: Parafraseando Cazuza, como é ser artista no nosso convívio, pelo céu e inferno de todo dia?

AB: Cara, eu duvido que sou artista a todo tempo. Quem escolhe ser artista e não nasceu em berço de ouro é foda. Clichê mas é a pura verdade. Eu duvido que sou artista quando eu encontro as minhas muitas limitações intelectuais e teóricas por ser autodidata. Eu as vezes não tenho tempo de me lembrar de arte também. Quando acordo às sete da manhã e faço dupla jornada de trabalho e chego morta sem nem conseguir pensar, não tem nada de Arte. Ai eu me lembro, na verdade, me lembro que sou artista e por isso faz tempo que to passando uns perrengues, que não tenho uma casa e um rotina “normal”. Quando eu encontro um monte de gente descolada que menospreza as minhas obras por não estarem inseridas em um cenário X ou escola Y. Mas sei lá, essa foi a minha escolha e sou muito feliz assim. Eu fico indignada mas tudo isso é uma provocação e acaba virando processo criativo.

PB: Como é a vida de artista nômade e porque surgiu essa situação  ou imagino que: necessidade?

AB: Eu sempre tive uma tendência nômade. Mas o fato de em um momento da minha vida eu ter decidido me dedicar totalmente a performance e ser autodidata fez toda a diferença. Eu estava vivendo no Rio de Janeiro e passava o dia todo pensando em performance, um dia eu tive um clique que queria conhecer pessoalmente aqueles artistas que eu acompanhava virtualmente. Foi quando decidi não ter uma moradia fixa e passar temporadas em lugares diferentes em busca de tentar entender a Performance. No caminho eu descobri que não era só eu, tem muito performer nômade. Na verdade faz todo o sentindo! O que mais importa para o artista performático é a ação, essa ação vem acompanhada da efemeridade. Já diz o Renato Cohen, a performance tem essa característica anárquica, com sua própria razão de ser, procura escapar de rótulos e definições. Ser nômades também. É aqui e agora! Quando moramos na estrada nunca sabemos quem vamos encontrar, ou como tudo se transformou. E com tanta necessidade de controle que temos na vida moderna eu acho isso uma das maiores virtudes dos nômades e performers.

PB: Sua obra “Quero ser Vênus” ainda não está concluída. Mas percebemos ao redor do seu trabalho que ela atua como fio condutor para quase tudo. Você pode falar um pouco sobre o fio mestre do projeto?

AB: O “ser bonita“ sempre foi sinônimo de se encaixar em padrões machistas que impõem características que não são de todos os tipos físicos. Eu nunca me encaixei nesse padrão e isso me trouxe muito sofrimento físico, psicológico e social/romântico. Chegou um momento que ou eu era eu ou era essa loucura. Nunca fez muito a minha cabeça as figuras famosas das revistas mas eu tinha um fixação pelas mulheres renascentistas. Eu criei uma questão na minha cabeça e eu queria ser a Vênus do Botticelli a qualquer custo. Isso começou quando eu era muito nova, lá pelos meus 8 anos de idade sabe lá a Deusa porque. Quando eu estava nos 20 e poucos e no ápice dos meus transtornos alimentares eu decidi que se eu não podia ser a Vênus eu iria ser a minha própria Vênus. Daí nasce o “Quero ser Vênus”.  Antes de começar a produção eu fui atrás dessas Vênus famosas, ter um cara a cara e depois entrei em um processo quase vingativo onde criei esculturas minhas, fotografias e tudo na época em que eu estava sofrendo mais pressão estética e estava quase com 100 kg. Eu vi como uma afronta a Vênus magra, europeia. Fazer essas Vênus de mim mesma. Esse meu confronto chegou ao nível de eu ir para Florença, no mesmo chão da Vênus do Botticelli ser retratada por 30 pintores na Florence Academy of Russian Art. Agora tem quadros meus pela China, Rússia, Estados Unidos, Marrocos e outros. Essa “vingança” claro é uma coisa que só existe na minha cabeça mas aí que mora a arte/vida.

PB: Todo esse processo é marcado por uma discussão estética, de um belo mercadológico e patriarcal. Você entende sua arte como uma tarefa militante para a quebra destes conceitos?

AB: Arte é política e ponto final. Eu não acho que vou conseguir quebrar conceitos mas eu gosto de provocar. Tenho uma obra em que eu colei diversos cartazes por Montevidéo com a pergunta “De quien la estética te alejó hoy?” [De quem a estética te afastou hoje?] Eu desprezo os conceitos tradicionais de feminilidade mas meu corpo é feminino. Tenho útero, seios que foram hiper sexualizados pelos os homens. Mostrar meu corpo nu não tem um interesse em chocar, essa auto-exibição é uma forma de denunciar os sofrimentos de muitas mulheres ao longo da história, que sempre estiveram atrás dos homens. Como já disse a performer Bárbara Kruger: “nosso corpo é um campo de batalha”.

PB: “A performance é minha religião” você disse isso. Comente:

AB: Eu sempre fui muito ligada a misticismo e ocultismo. Cresci em terreiro mas é na performance que eu me sinto mais mística e descubro os limites do meu corpo e as possibilidades da minha mente. Quando eu performo, me sinto curada, movimentando energia. Foi nesse lugar que eu descobri de verdade um transe. É tão forte que eu sinto que posso materializar essa energia. Um dia talvez eu resolva não me denominar mais como artista e sair total desse cenário mas eu nunca vou deixar de performar.

Conheça mais de Agatha Brum em:
Instagram: @agathabrum
Site: Acesse aqui!
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Fotografia de capa: Isabela Espíndola.
Instagram: @isabelaespindolafotografia
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