OCB Março
Literatura

Zen-Lunatismo: a religião Beat – Parte IV

zen

2.2 Hermetismo x religiões tradicionais – Zen Lunatismo          

Após observarmos três dos grandes nomes desta geração fica óbvio as distinções que lhes ocorrem. De acordo com Willer (2014) os beats não possuíam bandeiras estritamente religiosas, mas esta ligação se torna possível a partir de uma análise “genética”. Esta analise se inicia a partir dos antigos gnósticos dos primeiros séculos d.C. até William Blake, passando também pelo Espirito Livre. Blake, um velho conhecido dos Beats é apontado por Ginsberg como mentor desta relação com o transcendente e pilar para o que chamaremos de matriz. Esta matriz seria o fundamento filosófico que norteia o movimento. Ela seria a crítica ao mundo. Dividida em duas partes: a do imanente, exercida pela rebeldia as ordens estabelecidas e as estruturas de poder e a do transcendente, onde expressavam uma cosmovisão de que a realidade tal como está estabelecida — imediata e sensível — é falsa e, portanto, deveria ser substituída por um mundo mais harmônico e justo.

Para analisar a relação entre o hermetismo e as religiões tracionais iremos nos debruçar sobre o tema do sexo. O sexo tem um papel fundamental para a geração beat e serve como objeto pioneiro de análise sobre a relação entre licenciosidade e moralidade na beat. Temos em diversos livros e passagens referências religiosas como santidade e pecado, sobre pobreza como caminho da libertação do indivíduo e as próprias referencias de Kerouac em On The Road sobre a relação do jejum e da fartura já citadas anteriormente. Dentro deste panorama percebemos então, que a beat generation não se tratava apenas como tentam crer os conservadores; um bando de depravados sexuais, com desprezo pelo trabalho e por Deus. Os beats de forma geral buscavam pelo conhecimento, pela verdadeira sabedoria da vida. E esta busca está intrinsecamente ligada com seu código “genético” gnóstico.

A já marcada heterogeneidade deste grupo em questões sociais se mostra tão plural em termos religiosos e de influência. Não por acaso surgiram diversas formas de interpretação de textos e rituais; das mais diversas religiões e esoterismos, que levaram os Beats a refutar regras moralistas e a entender a potência da licenciosidade sexual. Esta liberdade sexual está contida em inúmeros textos, que por vezes buscam explicar alguma relação sagrada —como quando os personagens Japhy Rider (Gary Snyder) juntamente com Alvah Goldbook (Allen Ginsberg) ensinam para Ray Smith (Jack Kerouac) sobre o Yabyum, que de acordo com a narração de Kerouac seria uma espécie de ritual sagrado oriundo do budismo tibetano. De acordo com a narrativa, todos fizeram sexo com uma jovem que se pretendia bodisatva como parte deste ritual. (11) — outras apenas são narrativas de acontecimentos — como o quadrângulo amoroso contido em On The Road e formado por Kerouac, Cassady e sua primeira esposa: LuAnne Henderson e posteriormente por Kerouac e Carolyn, a segunda esposa de Neal Cassady. (Willer, 2014). Entretanto Kerouac de todos era o mais contigo sobre o erotismo em suas obras. Vacilava de obra para obra onde em Os Subterrâneos à uma dose de erotismo mais acentuada para Tristessa onde a relação com o sexo se dá a partir da castidade. Mais uma vez Jack coloca em voga sua grande marca literária: a luta entre santos e pecadores.

A diferenciação na relação do sexo entre os herméticos e os tradicionalistas pode ser observada em uma breve passagem de Um obscuro encanto: “Sexo é sempre a mesma coisa para o censor, para quem o combate; mas não para quem consegue enxergar as múltiplas manifestações do Eros Polimorfo”. Nisto está contigo a diferença sobre o que as pessoas veem sobre os beats contra o que de fato era. A libertinagem é o poder da liberdade de conduta, a permissividade total. Mas para os Beats o sexo como descrito na passagem do Yabyum fazia parte de uma cerimônia religiosa. A relação do sexo libertário é colocada sob o panorama binário do sagrado e profano, tanto na perspectiva gnóstica quanto budista. Em A nova visão de Blake aos Beats Michael Mcclure apresenta a sustentação da licenciosidade sexual beat a partir de uma tradição budista:

Há pelo menos três modos de esvaziar o aparelho sensorial. Um é a prática de ioga ou meditação — o treinamento proposital, estudado e metódico do corpo-mente para focar no vazio. Outro modo de atingir este estado era o Boga. Os membros da sociedade que não podiam praticar a ioga, ou que, devido a sua classe ou obrigações não podiam praticar a primeira via, às vezes escolhiam a segunda. Boga era a celebração do esvaziamento dos sentidos realizado por meio do embotamento dos sentidos. Aqueles que tomavam o caminho do Boga reuniam-se para ingerir carne (algo proibido), queimar grãos (algo proibido), beber vinho (algo proibido) e participar de jogos sexuais. Tentando encontrar a plenitude do nirvana por meio do excesso, vislumbrava-se o mundo para, além do véu de Maya (12)

O sexo, assim como o uso de drogas tinham uma relação religiosa tão elevada que foram incorporados a própria religião. Poderíamos dizer com isso que Jack e Allen, assim como outros no auge de sua rebeldia moral estavam inundados pela ascese antissistêmica de suas próprias religiões.

 

_________________________________________________________________
(11)KEROUAC, Jack.  Vagabundos Iluminados. p;33-35 Trad. Ana Ban. Porto Alegre, L&PM, 2010.
(12) MCCLURE, Michael. A nova visão de Blake aos Beats. p.71. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2005.

Comente também!

comentários

Clique para Comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Psicodelizando é mantido pela Psicodelia Minha Doce Esquizofrenia, um portal criado para compartilhar ideias, experiências, arte e ativismo. Estamos em conformidade com a lei e não fazemos apologia a nenhum tipo de substância.

Siga-nos

CIMA