Psicodelizando
O MDMA

O MDMA na psicoterapia do transtorno de estresse pós-traumático, segundo estudo

O MDMA a matéria prima do famoso Ecstasy

A popular “bala” consumida recreativamente em festas e outras trips. Mas justificando a foto destacada no artigo: nem todo Ecstasy contém MDMA, isto porque as drogas ilícitas não são vistoriadas e frequentemente as famosas balas podem conter intoxicantes, por vezes não há nem traços de sua matéria prima. Portanto que fique claro, o estudo apresentado a seguir foi conduzido com o MDMA puro que, em teoria, é o estado mais puro do Ecstasy. Mas isso não quer dizer que a pílula que tomamos por aí detenha os mesmos poderes terapêuticos.

Esta substância, segundo um recente estudo publicado na Neuropsychopharmacology (2018) parece ter um efeito mais forte nas memórias emocionais do que as memórias comuns, ou seja, atenua memórias que levem uma carga emocional elevada. A descoberta pode explicar por que a droga tem efeitos benéficos para pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e condições psiquiátricas semelhantes. Já havíamos comentado em 2017 sobre os poderes terapêuticos do MDMA no alcoolismo, você pode ler este artigo aqui.

o mdma

O MDMA, mais comumente conhecido como ecstasy, Michael Douglas ou Molly, promove fortes sentimentos de empatia nos usuários. Pesquisas preliminares descobriram que o MDMA na psicoterapia assistida reduz os sintomas em pessoas com TEPT resistente ao tratamento. Conversamos então com o autor do estudo de caso que eleva esta nova frente na psicoterapia, Dr. Manoj Doss:

 

“Antes de iniciar o meu doutorado, tinha trabalhado em laboratórios de psicofarmacologia e memória episódica e, para o meu estudo, esse foi um dos poucos locais onde poderia ser realizado um rigoroso trabalho a respeito da memória episódica humana com manipulações psicofarmacológicas raras. Naquela época, o MDMA e a pesquisa psicodélica estava em ascensão e a eficácia do MDMA como um complemento à psicoterapia para o tratamento de TEPT já era cogitada.”, explicou o autor do estudo, Manoj K. Doss, da Universidade de Chicago.

 

A memória episódica nada mais é que a soma de eventos autobiográficos intrinsecamente relacionada com tempo. São memórias que só fazem sentido se lembrarmos também daquele momento e contexto específico. Justamente por esta especificidade que o TEPT pode ser explicado como uma desordem traumática da memória episódica.

 

“O transtorno do estresse pós-traumático é especialmente interessante para os pesquisadores de memória, porque os indivíduos que sofrem com isso têm essas lembranças fortes e gritantes de experiências negativas, mas sua memória cotidiana é prejudicada. O MDMA é também um fármaco particularmente interessante porque tem efeitos farmacológicos e comportamentais semelhantes aos estimulantes típicos como a anfetamina, ou o Adderall propriamente dito que é um medicamento amplamente utilizado. A diferença é que o MDMA prejudica, de certa forma, a memória”, Disse Doss.  “Estes aspectos conflitantes do TEPT e MDMA acabaram me levando a investigar se os efeitos do MDMA na memória emocional poderiam fornecer uma explicação mecanicista de como ele pode melhorar o TEPT”

 

O estudo duplo-cego controlado por placebo de 60 voluntários saudáveis ​​examinou os efeitos da MDMA na codificação e recuperação de memórias negativas, neutras e positivas. Os pesquisadores descobriram que o MDMA não afeta a precisão geral da memória, mas a droga diminuiu o armazenamento e a lembrança de informações emocionais negativas e positivas.

 

“O MDMA atenua as lembranças emocionais, sejam elas memórias de uma experiência sob a influência do MDMA ou se você está tentando lembrar de um evento emocional sóbrio sob a influência do MDMA”, disse Doss. “Essas deficiências foram específicas para memórias negativas e positivas (não para memórias neutras), e elas afetaram apenas certos processos de memória.”

“Em contraste, nós mostramos que o álcool modula muito mais fortemente vários aspectos da memória episódica. Minha especulação é que parte do benefício do MDMA para o transtorno do estresse pós-traumático vem do modo como o MDMA distorce a maneira como uma memória traumática é recuperada e, em seguida, amortece seletivamente a informação que é subsequentemente recodificada, alterando assim a memória traumática.”

“Uma ressalva óbvia foi que os efeitos que encontramos para as memórias negativas eram aplicáveis também para memórias positivas. Suponho que isso possa significar que, durante a psicoterapia assistida por MDMA, os terapeutas devem focar o tratamento de memórias negativas e evitar memórias positivas, mas é um pouco cedo para fazer afirmações fortes antes que essas descobertas sejam replicadas e ampliadas.”

“Algo que seria interessante para o trabalho futuro seria investigar se os efeitos estimulantes do MDMA são necessários para que seus efeitos terapêuticos sejam alcançados”, explicou Doss. “Estimulantes típicos como Adderall e metanfetaminas na verdade melhoram a memória emocional em um grau maior do que as memórias neutras (ou seja, essencialmente o efeito oposto do MDMA), um efeito que poderia potencialmente piorar o TEPT.”

 

Ainda há muito a aprender sobre como o MDMA afeta os seres humanos e o potencial que ele tem como medicamento. Uma grande diferença entre estimulantes típicos e o MDMA são os seus gatilhos ou mecanismos de ação.  Os efeitos mais fortes do MDMA são na serotonina, um neurotransmissor importantíssimo que regula funções vitais no cérebro, como o sono, apetite e humor.

Seria interessante testar outras drogas na memória episódica que têm efeitos serotoninérgicos fortes como o MDMA, mas com efeitos estimulantes muito mais fracos (por exemplo, MDAI).

 

Fonte:

DOSS, Manoj K. et al. MDMA Impairs Both the Encoding and Retrieval of Emotional Recollections. Neuropsychopharmacology, v. 43, n. 4, p. 791, 2018.

Hugo Pitta

Paulistano da gema, foi criado no fundão da Zona Leste de SP (#DoItaimProMundo). Desde cedo envolvido com a arte da vida, descobriu-se atleta de taekwondo, fotógrafo, amante da natureza e viajante-gaiato entre as fronteiras deste mundão! Graduando em Ciências Biológicas e funcionário público, tenta conciliar a vida corrida com a gerência da equipe de redação do site.