Psicodelizando
iboga

Iboga e o povo Bwiti podem ser a solução para a dependência química

A iboga contém doze alcalóides, sendo a ibogaína o mais importante. Constitui um poderoso estimulante psicoativo, que produz efeitos alucinógenos.

“Iboga” (Tabernanthe iboga) é uma raiz muito utilizada na cultura Bwiti que se desenvolve em florestas tropicais da África Central, principalmente no Gabão, República de Camarões e Congo.

Preparação e uso

Os nativos embebem a raiz em água quente cerca de meia hora. A bebida é consumida assim que o líquido esfria, alguns povos adicionam outros etnobotânicos na mistura. Esta preparação constitui um poderoso portal meditativo, utilizado pelos anciões Bwiti. Consomem de 2 a 5g em um ritual que leva dias e dias seguidos.
Outro uso da iboga é durante as caçadas. Os participantes mastigam a raiz durante a perseguição para manter o estado de alerta durante dias e dias seguidos.

Efeitos

A iboga contém doze alcalóides, sendo a ibogaína o mais importante. Constitui um poderoso estimulante psicoativo, que produz efeitos alucinógenos (se tomado em doses elevadas). Os relatos descrevem visões multissensoriais, encontros divinos, expansão de consciência e sentidos.

A cultura Bwiti

O Bwiti é na verdade um ritual de iniciação dos povos Mitsogo e Gapinzi, da região oeste-equatorial da África.
Estes povos são conhecidos por usarem mascaras de madeira pintadas com cores fortes. São animistas, ou seja, povos que crêem na essência espiritual de todas as entidades (objetos, plantas e animais).
A etimologia da palavra Bwiti, do Okaba, significa “empoderamento. Acredita-se então que o ritual (inteiramente ligado a ibogaína) permita que uma pessoa obtenha sua total liberdade!

iboga

Tratamento contra a dependência química

Estudo feito pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indica que a ibogaína é pelo menos cinco vezes mais eficiente para interromper a dependência química do que tratamento convencionais.
Em entrevista feita pelo Planeta Ciência o médico Bruno Chaves (um dos responsáveis pela pesquisa da Unifesp) nos conta melhor como a ibogaína reage no cérebro:

O estudo foi feito com 75 pacientes, entre usuários de crack, cocaína e álcool, entre janeiro de 2005 e março de 2013. Dos 67 pacientes homens, 55% ficaram livres do vício por, pelo menos, um ano. Entre as oito mulheres, a taxa foi 100%. Os tratamentos convencionais interrompem o vício em um índice que varia de 5% a 10% dos casos. Os resultados do trabalho inédito foram publicados no The Journal of Psychopharmacology, da Inglaterra, uma importante publicação na área de psicofarmacologia.

Os participantes da pesquisa eram pessoas com histórico de dificuldades em deixar o vício.

– A gente tem pacientes nesse grupo que, com 30 anos de idade, registram mais de 30 internações – exemplificou Chaves.

Eles passaram por uma avaliação psiquiátrica e uma preparação psicológica antes de serem submetidos ao tratamento.

– É importante que o paciente esteja motivado para aproveitar o efeito da ibogaína – acrescentou o médico sobre o processo de seleção.

A ibogaína tem efeitos semelhantes aos da ayahuasca, bebida feita de plantas amazônicas usada em cerimônias religiosas.

– A diferença é que a ibogaína é muito mais potente do que a ayahuasca. Para você ter uma ideia, o efeito da ayahuasca dura quatro horas. O da ibogaína dura de 24 a 48 horas – explicou Chaves sobre a substância, que causa a sensação de expansão de consciência.

– O paciente começa a perceber melhor o que ele representa na vida, qual é a função dele no planeta, quais são as coisas que está fazendo certo, o que está fazendo errado – detalhou o médico que acompanhou os pacientes durante a administração da medicação.

Na maioria dos casos, com apenas uma dose, o medicamento corta a vontade de usar drogas e coíbe crises de abstinência.

– Ela equilibra a quantidade de neurotransmissores que há no cérebro e isso faz com que o paciente tenha uma sensação de bem-estar definitiva, não é só durante o efeito da medicação. A impressão que dá é que a ibogaína interrompe o processo que leva à dependência química – explica Chaves.

Ao acabar com o interesse pela droga, o paciente tem, segundo o médico, mais facilidade de seguir com outras etapas do tratamento, como o acompanhamento psicológico, e retomar as atividades cotidianas. Ele alerta, no entanto, para que não seja feito o uso independente da substância, que pode ter feitos colaterais, como tontura, enjoo e confusão mental, durante o período de efeito.

O objetivo agora, de acordo com Chaves, é conseguir financiamento para um estudo mais amplo, com um número maior de pacientes e testes que possam mostrar os efeitos da ibogaína no cérebro. Sem dúvida alguma é um grande avanço para a medicina psicodélica e xamânica.

 

Fonte: Planeta Ciência

Fonte: POPE, H. G. Tabernanthe iboga: an african narcotic plant of social importance. Economic Botany.

Hugo Pitta

Paulistano da gema, foi criado no fundão da Zona Leste de SP (#DoItaimProMundo). Desde cedo envolvido com a arte da vida, descobriu-se atleta de taekwondo, fotógrafo, amante da natureza e viajante-gaiato entre as fronteiras deste mundão! Graduando em Ciências Biológicas e funcionário público, tenta conciliar a vida corrida com a gerência da equipe de redação do site.